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3 - O Evangelho Segundo Marcos
Até o século XIX o Evangelho segundo Marcos estava no esquecimento, um pouco deixado de lado. Os Padres da Igreja não tecem nenhum comentário sobre o Evangelho segundo Marcos.
Em 1943 com a “Divino Afflante Spirito”[1] o Evangelho Segundo Marcos toma sua importância. Pode-se formular uma pergunta: quais são as razões para este aparente “esquecimento” do Evangelho de Marcos?
As razões são as seguintes:
Pensava-se que o Evangelho de Marcos era uma síntese das atividades de Pedro, pois Pedro é uma figura com bastante destaque neste Evangelho, sendo descrito como uma pessoa sem mácula, é mostrado em Marcos como uma pessoa ideal.
Até o Concílio Vaticano II[2] acreditava-se que o Evangelho segundo Marcos era uma síntese do Evangelho segundo Mateus, e até este Concílio não se tinha a divisão das leituras dos Evangelhos nas liturgias dominicais como temos no presente (ano A, B e C)
A posição atual:
Hoje se sabe que o Evangelho segundo Marcos é o Evangelho mais antigo, foi o primeiro a ser escrito e é o mais próximo do Jesus “histórico”.
Os escritos de Marcos serviram de fonte para os Evangelhos segundo Mateus e Lucas.
3.1 - Autor
O autor do evangelho sinótico mais primitivo é identificado pelo nome de Marcos que tem inúmeras citações nos Evangelhos e no livro dos Atos dos Apóstolos. Assim temos:
- At 12,12: identifica Marcos com o cognome de João Marcos;[3]
- At 15,37 e Cl 4,10: Marcos – ou João Marcos – primo de Barnabé;
- Mc 14,51-52: aparece um relato único em que fala de um jovem que foge nu após uma tentativa de prisão (?), deixando para trás um lençol que o envolvia; “muitos comentadores entenderam que este jovem é o próprio evangelista.”[4]
3.2 - Data
O evangelho de Marcos é o mais primitivo e sua redação deve ter ocorrido por volta do ano de 65 d.C. aproximadamente, e provavelmente em Roma, pois utiliza muitas expressões latinas, chegando mesmo a nomear uma moeda de uso corrente em Roma (Mc 12,42: “quadrante”).
3.3 - Destinatários
É unânime que os destinatários do escrito de Marcos deve ter sido a comunidade de Roma devido aos inúmeros latinismos utilizados.
3.4 - Visão geral
O Evangelho Segundo Marcos é composto por 16 capítulos e apresenta a seguinte visão geral:
- Capitulo 1, 1-15: parte introdutória, onde o objetivo de Marcos é apresentar Jesus como o Filho de Deus;
- Capítulo 1,16 até 8,26: primeira parte do Evangelho de Marcos que consiste em apresentar o que é o Reino de Deus e o que se deve fazer para participar deste Reino. Há uma catequese de Jesus junto ao povo
- Capítulo 8,27 até 13,37: segunda parte do Evangelho de Marcos e neste bloco se encontram os anúncios da paixão com uma catequese dirigida aos discípulos;
- Capítulo 14 até 16: parte final onde relata a paixão, morte e ressurreição de Jesus.
3.5 - Alguns aspectos literários
Dentre as características do Evangelho de Marcos destacam-se:
- é o relato que tem a linguagem mais simples dos demais evangelhos;
- Marcos utiliza poucas expressões ou vocábulos da língua hebraica, e quando usa procura explicar seus significados em virtude da compreensão de seus destinatários (Mc 3,17; 5,41; 7,34; ...);
- também tendo em vista seus destinatários Marcos usa poucas citações do Antigo Testamento e procura amenizar a relação com os judeus;
- etc.
3.5.1 - Humanidade de Jesus
O Evangelho de Marcos tem como finalidade principal mostrar Jesus como o Filho de Deus (Mc 1,1; 15,39), mas é o evangelho que salienta com mais ênfase a natureza humana de Jesus. Assim, podemos verificar uma série de sentimentos humanos de Jesus que Marcos salienta:
- Mc 6,34: “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor.”
- Mc 7,34: “Depois, os olhos para o céu, gemeu, e disse: ‘Effatha’ que quer dizer ‘Abre-te’ “.;
- Mc 10,21: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ‘Uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’ “.;
- Mc 11,15: “(...) E entrando no Templo, ele começou a expulsar os vendedores e os compradores que lá estavam...”;
- Mc 14,33: “E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a apavorar-se e a angustiar-se”.;
- etc.
3.5.2 - O segredo messiânico
É singular do texto evangélico de Marcos a temática do “segredo messiânico”; este tema não é abordado por nenhum dos outros evangelistas. No que consiste este segredo?
Após cada ação de Jesus, nos milagres, ele recomenda às pessoas que vão se apresentar aos sacerdotes, que eram as pessoas que deveriam atestar a cura, mas proíbe que revelem que foi ele o autor de tal feito. Até mesmo quando Jesus expulsa demônios (Mc 1,25.34; 3,11s), os proíbe de revelar sua identidade divino-messiânica.
A explicação para esta recomendação é a seguinte: no conceito e mentalidade da época a palavra messias, tinha também a conotação de um “ungido” de Deus para efetuar a libertação do jugo romano, dando um caráter político-social para a messianidade de Jesus. Além disto, os contemporâneos de Jesus, incluindo seus adeptos não entendiam que Jesus deveria sofrer a morte na cruz, causando assim confusão. Ora, que messias é este que sofrerá e morrerá na cruz? A reflexão final só é elaborada e compreendida após a experiência da ressurreição de Jesus.
3.5.3 - Aparições de Jesus Ressuscitado
O trecho final do Evangelho segundo Marcos – Mc 16,9-20 – apresenta certa dificuldade quanto a autoria atribuída à Marcos. Este bloco é um texto composto posteriormente ao corpo do referido evangelho, tendo sua datação aproximada por volta do ano 150 d.C.. Trata-se de um acréscimo que podemos classifica-lo como epílogo do texto.
A Bíblia de Jerusalém, no início da nota explicativa para este trecho aborda esta questão:
“O trecho final de Mc (vv. 9-20) faz parte das Escrituras inspiradas; é tido como canônico. Isso não significa necessariamente que foi escrito por Mc. De fato, põe-se em dúvida que esse trecho pertença à redação do segundo evangelho. (...)”.
A temática deste epílogo é um resumo sobre as aparições de Jesus ressuscitado que estão nos outros evangelhos canônicos. Desta forma temos as seguintes relações:
- Mc 16,9-10 || Jo 20, 11-18: aparição a Maria Madalena;
- Mc 16,11-12 || Lc 24,13-35: aparição aos Discípulos de Emaús;
- Mc 16,14 || Jo 20,19s: aparição aos Onze e demais Discípulos;
- Mc 16,15 || Mt 28,18-20: aparição aos Onze na Galiléia;
- Mc 16,19 || Lc 24,50-53: ascensão de Jesus.
4 - O Evangelho Segundo Mateus
Na ordem dos textos, as Bíblias trazem o Evangelho Segundo Mateus como o primeiro escrito do Novo Testamento ainda que o mesmo não seja o escrito primitivo. Por que isto ocorre?
Até o Concílio Vaticano II (1962-1965) o Evangelho de Mateus é o texto mais utilizado pela Igreja, o mais comentado desde o inicio do cristianismo pelos Padres da Igreja. Esta preferência deve-se ao fato de que neste evangelho se encontram alguns temas em que a Igreja se identifica imediatamente:
- Mt 5,1-12: Desde o início do cristianismo a comunidade eclesial dá grande valor ao trecho das bem-aventuranças reconhecendo neste relato um tipo de “carta magna” para o agir do cristão;
- Mt 5,17: A relação valorizativa de Jesus com o Antigo Testamento onde ele, Jesus, não vem revogar a Lei ou os Profetas. A Igreja dá importância a toda Bíblia com seus dois grandes blocos.
- Mt 16,13-20: A profissão de fé e o primado de Pedro;
- Mt 18: A Igreja valoriza os segmentos dentro do capítulo 18 de Mateus por entender que aí se encontram temas importantíssimos para a convivência eclesial: 18,1-4: quem é.o maior; 18,5-11: cuidado com o escândalo; 18,12-14: a ovelha desgarrada; 18,15-18: a correção fraterna; 18,19-20: a oração em comum; 18,21-35: o perdão das ofensas. Este capítulo pode ser encontrado com o título de “discurso eclesiástico”.[5]
4.1 - Autor
Hoje em dia é discutível a identificação do Evangelho de Mateus com o coletor de impostos que é relatado no próprio evangelho de Mateus, bem como por Marcos e Lucas (Mt 9,9 || Mc 2,13-14; Lc 5,27-28).
O estudioso Wilfrid Harrington aborda esta questão trazendo informação e questionamento sobre o possível autor deste evangelho:
“A tradição unânime da igreja primitiva é de que Mateus, um dos Doze, foi o primeiro dos quatro evangelistas a escrever um evangelho, e que ele escreveu em aramaico. Todavia, o evangelho de Mateus, como nos chegou às mãos no Novo Testamento, foi escrito em grego; não é uma tradução. A relação entre o tradicional escrito aramaico e o evangelho posterior é obscura. Mateus pode ter sido o autor da obra aramaica; é-nos impossível dar o nome do autor do evangelho grego. Por questão de conveniência ele continua a ser, em nossas referências, o evangelho de Mateus.”
Ainda como causas para esta dúvida sobre a autoria é que a linguagem e estrutura de teologia, pensamento, etc. é muito bem elaborado levando-se a acreditar que o autor deste evangelho deveria ser alguém letrado na escritura judaica, talvez um rabino, ou doutor da Lei. Ora, os publicanos não eram pessoas que tinham esta cultura, eram quase semi analfabetos e sabiam apenas fazer contas em função de sua atividade de coletor de impostos.
De qualquer forma, conforme afirmado acima, a tradição atribui àquele coletor de impostos a autoria do Evangelho de Mateus.
O nome Mateus é de origem hebraica (“Mathai”) e significa “dom de Deus”.
4.2 - Data de redação
A data de redação do Evangelho Segundo Mateus é fixada pela maioria dos estudiosos por volta dos anos 80 d.C. até 90 d.C. baseando-se no interesse do autor em salientar uma estrutura de vida eclesial, o que deve levar a estes anos aproximados indicando uma data relativamente tardia.
4.3 - Destinatários
A análise do texto de Mateus autoriza a afirmação de que o texto foi escrito para uma comunidade de origem judaica pois é uso comum numerosas citações e correlações com os textos da Tanak (a Bíblia Hebraica, que é composta por três partes distintas: a Torá (Lei), os Nebiim (Profetas) e o Ktuvim (Escritos).
A maioria dos estudiosos, baseando-se na data de composição, coloca como local provável de redação a cidade de Antioquia, ainda que São Jerônimo (347-420 d.C.) defenda a idéia de local de composição a Palestina tendo em vista os destinatários.
4.4 - Visão Geral
O texto de Mateus apresenta o seguinte esquema:
- Mt 1-2: Prólogo - narrativa da infância;
- Mt 3-7: - O Reino aparece;
- Mt 8-10: - Missão salvadora de Jesus;
- Mt 11-13: - O Reino escondido;
- Mt 14-18: - O Reino se desenvolve;
- Mt 19-25: - A caminho da Paixão;
- Mt 26-28: - Paixão e ressurreição
4.5 - Alguns Aspectos Literários
Mateus insere Jesus em conexão com a História de Israel, para isso usa de alguns artifícios:
4.5.1 - Genealogia
Com a finalidade de mostrar Jesus conexo com a história do povo hebreu a genealogia de Mateus fala claramente que Jesus é Filho de Davi e de Abraão (patriarca de Israel) passando a narrar a genealogia (Mt 1,1-17).
4.5.2 - Jesus, novo Moisés
Para os judeus a parte principal da Escritura Hebraica é a Torá, que tem por autor o próprio Moisés. Mateus coloca assim a atividade de Jesus em 10 partes que contém 5 discursos e 5 narrativas, salientando que Jesus é “o novo Moisés”.
- INTRODUÇÃO (1-2) – Cunho masculino com destaque para a figura de José;
1 – NARRATIVA (3-4)
2 – DISCURSO (5-7) – O Sermão da Montanha;
3 – NARRATIVA (8-9) – 10 milagres;
4 – DISCURSO (10) – Missionário
5 – NARRATIVA (11-12) – Jesus é rejeitado por Israel;
6 – DISCURSO (13) – As parábolas do Reino;
7 – NARRATIVA (14-17) – Fundamentos da Igreja, com destaque para 16,13-26.
8 – DISCURSO (18) – O chamado “Discurso Eclesiológico”;
9 – NARRATIVA (19-23) – A crítica aos grupos judaicos;
10 – DISCURSO (24-25) – Temática do discurso é escatológico;
- EPÍLOGO (26-28) - A Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.
Neste paralelismo entre Moisés e Jesus, Mateus coloca no relato da infância a ameaça de morte que Jesus também sofre, a ida para o Egito, e o retorno no tempo oportuno (Mt 2,13-23)
4.5.3 - Jesus, A Lei e os Profetas
Mateus valoriza o texto bíblico hebraico mencionando que Jesus não vem revoga-lo (Mt 5,17), mas dar pleno cumprimento dele.
4.5.4 - Jesus: o Deus conosco
Mateus utiliza referencias escrituristicas judaicas, por exemplo Is 7,14, falando que Jesus é o Emanuel – Deus Conosco (Mt 1,23).
4.5.5 - O Reino dos Céus
Aquilo que os outros evangelistas chamam de “Reino de Deus”, em Mateus é chamado de “Reino dos Céus”, obedecendo o costume judaico-religioso de não pronunciar, nem utilizar o nome de Deus, que é sagrado e não pode ser pronunciado de maneira alguma.
INFÂNCIA – 3 MOMENTOS:
4.5.6 - A “Eklesia”
De todos os evangelista somente Mateus é quem usa o termo grego “eklesia” (Mt 16,18; 18,17) para se referir á comunidade dos seguidores de Jesus – a Igreja.
Assim, o Evangelho segundo Mateus é o que utiliza maiores elementos semitas tendo em vista anunciar “o evento Jesus Cristo”. Este artifício quer dar autoridade perante os judeus e entre aqueles recém convertidos oriundos do judaísmo.
5 - O Evangelho Segundo Lucas
5.1 - Autor
Há algumas idéias sobre o autor do terceiro evangelho canônico.
É certo pelos exegetas que o autor do terceiro evangelho – Lucas – não fez parte do grupo dos Doze Apóstolos. Outros exegetas propõem a idéia de que Lucas possa ter feito parte do grupo dos setenta e dois discípulos enviados em missão (Lc 10,1-20). Admitindo-se esta hipótese há um problema que não pode ser desprezado: o evangelista Lucas não identifica nenhum dos setenta e dois discípulos. O relato da missão dos setenta e dois discípulos foi colocado para salientar a característica da universalidade de seu evangelho.
Lucas é mencionado nas viagens do Apóstolo Paulo – a partir da segunda viagem – e aparece como uma espécie de “secretário” do Apóstolo dos Gentios (At 15, etc.). “Lucas aparece como amigo e companheiro de Paulo em Cl 4,14; 2Tm 4,11; Fm 24”.[6]
É comum a idéia de que Lucas tenha sido médico e esta informação pode ser corroborada verificando-se os relatos de milagres em que Lucas dá detalhes sobre as doenças quando ocorrem os milagres.
Uma antiga tradição oriental afirma que Lucas teria sido pintor e que foi o primeiro a retratar o rosto de Nossa Senhora. Tal afirmativa é de difícil comprovação. O que é certo é que Lucas pode ter consultado a própria Mãe de Jesus para compilar seus relatos da infância, ou mesmo ter se servido de uma tradição oral que já existia.
O Evangelho Segundo Lucas é o único caso no Novo Testamento[7] em que se tem dois Livros com um só autor[8]: tanto o Terceiro Evangelho Canônico e o Livro dos Atos dos Apóstolos atribui-se a compilação a Lucas.
Fácil verificar esta ligação, pois o final do Evangelho Segundo Lucas é igual ao inicio do livro dos Atos dos Apóstolos (Lc 24,51 || At 1,9.12[9]), além dos dois relatos se dirigirem inicialmente ao mesmo destinatário, identificado como “Teófilo” (Lc 1,3 || At 1,1). Trata-se de dois escritos interligados em que se tem uma só obra em dois volumes e não é possível entender plenamente um livro prescindindo do outro.
O Evangelho Segundo Lucas tem características próprias de uma cultura helenista (estilo, mentalidade, cultura, vocabulário, gramática, etc.).
5.2 Data de redação
A fixação de datas para a composição dos textos bíblicos é sempre um problema sério, pois não é possível precisar a gênese dos escritos, podendo somente ser atribuídas datas aproximadas. O relato de Lucas não foge a regra geral e é estimada a composição “nas proximidades do ano 80 d.C. – se foi composto antes ou depois desta data, isso é impossível determinar.”.[10]
5.3 - Destinatários
Os destinatários do relato de Lucas são certamente os gentios. Por conta do publico alvo Lucas evita, coerentemente, muitos temas ou assuntos que poderiam parecer, de modo excessivo, especificamente judaicos.
5.4 - Exclusividade de Lucas
Encontramos em Lucas uma série de narrativas importantíssimas e que só aparecem neste Evangelho:
- a visita de Maria para Isabel e o “Magnificat”: Lc 1,39 – 56;
- a apresentação de Jesus no Templo: Lc 2, 22 – 24;
- a missão dos setenta e dois discípulos: Lc 10,1;
- a parábola do bom samaritano: Lc 10,29 – 37;
- a parábola do filho pródigo: Lc 15,11 – 32;
- a parábola do fariseu e o publicano: Lc 18,9 – 13;
- visita a Zaqueu: Lc 19,1 – 10;
- os discípulos de Emaús: Lc 24,13 – 35;
É próprio ainda de Lucas as temáticas teológicas:
- da misericórdia;
- da ênfase do feminino, salientando o protagonismo da mulher;
- do universalismo da salvação;
- da ênfase pneumatológica (do Espírito Santo);
- da oração;
De todo o material presente no texto lucano, quase a metade, é exclusivo de Lucas, não aparecendo nos outros evangelhos (Sinóticos e João).
Algo bastante particular no evangelho lucano é o itinerário que Jesus faz da Galiléia até Jerusalém ocorrendo uma caminhada dinâmica e crescente que começa na Galiléia, se desenvolve aos poucos neste caminho para Jerusalém até eclodir na capital Jerusalém.
5.5 - Visão geral
O Evangelho Segundo Lucas pode ser dividido utilizando-se a seguinte visão geral:
- prefácio: Lc 1,1 – 4 (objetivo do escrito, destinatários, tema/assunto, método de pesquisa utilizado, fontes utilizadas)[11];
- 1ª parte: Lc 1,5 – 4,13 (Jesus que é revelado o Salvador);
- 2ª parte: Lc 4,14 – 9,50 (atividade de Jesus na Galiléia);
- 3ª parte: Lc 9,51 – 19,28 ( a caminhada da Galiléia até Jerusalém, que é a parte mais original de Lucas, e que a temática da misericórdia está mais latente neste bloco literário);
- 4ª parte: Lc 19,29 – 24,53 (Jesus em Jerusalém, confronto com os poderosos).
5.6 - Alguns aspectos literários
Cada escritor tem sempre uma forma própria de escrever, um estilo próprio e inconfundível.
O evangelista Lucas, ao escrever seu relato para os gentios – gregos que se converteram ao cristianismo –– utiliza uma linguagem própria destes, e para estes, destinatários. São Jerônimo afirma que o idioma utilizado por Lucas – o grego – é o mais bonito de todo Novo Testamento.
Tendo em vista os destinatários de sua mensagem pode-se destacar em Lucas:
5.6.1 - História Bíblica e História Universal
Lucas insere a história bíblica dentro da história universal, ou seja, coloca dados da história da humanidade junto com seus relatos neotestamentários. Por exemplo:
Lc 1,5: cita o rei Herodes da Judéia quando fala de Zacarias e Isabel na ocasião do anúncio do nascimento de João Batista;
Lc 2,1 – 2: menciona o nome do Imperador Romano e do governador da Síria – Cesar Augusto e Quirino, respectivamente – falando do recenseamento em que José vai até a cidade de Belém.
Lc 3,1 – 2: elenca vários governantes (imperador Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás) quando relata o início da pregação de João Batista.
5.6.2 - Atitudes opostas
O Evangelista Lucas coloca em seu texto relatos em que une atitudes opostas entre pessoas:
- Lc 10,38 – 42: Marta e Maria;
- Lc 18,9: O fariseu e o publicano;
- Lc 23,39: Os dois ladrões crucificados com Jesus;
- Lc 17,11: O relato da cura dos 10 leprosos;
- Lc 7,36: A pecadora e o fariseu.
5.6.3 - Expectativa ou curiosidade
Lucas deixa o seu leitor na curiosidade / expectativa para saber a resposta de um tema proposto anteriormente e que a explicação, ou solução, encontra-se em outra parte de seu evangelho:
- Lc 1,80: O dia da manifestação de João Batista a Israel está contemplado em Lc 3,1 – 20 quando fala da prisão do próprio Batista;
- Lc 3,19 – 20: O que aconteceu com o Batista está explicado em Lc 9,9 (a morte por decapitação);
- Lc 4,13: O diabo deixa Jesus para aparecer futuramente em Lc 22,3, quando satanás entra em Judas;
5.6.4 - A Geografia da Palestina
É característica literária de Lucas a explicação da geografia da Palestina:
- Lc 1,26: Nazaré, da Galiléia;
- Lc 4,31: Cafarnaum, cidade da Galiléia;
- Lc 8,26: Região dos gerasenos, lado contrário da Galiléia;
- etc.
5.6.5 - Supressão de repetições
No evangelho de Lucas não há relatos duplos como aparecem em Marcos e Mateus:
- A multiplicação dos pães: Lc 9,10 – 17; Mt 14,13 – 21; Mc 6,30 – 44;
Mt 15,32 – 39; Mc 8,1 – 10;
- Os processos de Jesus diante de Caifás e Pilatos: Lc 22,54 – 23,25;
- No Monte das Oliveiras: Marcos e Mateus falam que Jesus subiu ao monte três vezes;
5.6.6 - Relação com o judaísmo
O texto lucano evita tudo o que tenha relação com a religião, cultura e costumes judaicos, pois escreve seu relato para os gentios.
Pode-se observar este cuidado comparando-se duas passagens distintas da morte de Jesus na cruz:
- Mt 27, 46: “Eli, Eli, lama sabactháni?” – Mateus, que escreve para convertidos oriundos do judaísmo, utiliza um Salmo da Escritura Vetero-testamentária (Sl 22,2 que é conhecido dos judeus), e o coloca na boca de Jesus;
- Lc 23,46: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” – Lucas não poderia escrever seu evangelho para os gentios e colocar um trecho – o de Mateus – em que se nota o abandono de Deus ao justo que morre. Lucas grafa as palavras de Jesus para demonstrar a misericórdia e acolhimento de Deus Pai.
5.7 - Alguns temas
Destacamos alguns temas teológicos dentro do terceiro evangelho: o Espírito Santo, a pregação inicial de Jesus, a alegria e a universalidade da salvação:
5.7.1 - O Espírito Santo
No evangelho de Lucas é saliente a ação do Espírito Santo tanto em Jesus como em outras personagens:
- Lc 1,15: João Batista “ficará pleno do Espírito Santo”;
- Lc 1,35: para Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra...”
- Lc 1,41: Isabel – repleta do Espírito Santo;
- Lc 1,67: Zacarias, pai de João Batista, profetiza repleto do Espírito Santo;
- Lc 3,16: Jesus “batizará com o Espírito Santo...”;
- Lc 3,22: no batismo de Jesus – “e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba”.;
- Lc 2,25 –27: Simeão, justo e piedoso, está com o Espírito Santo;
- Lc 4,1: pleno do Espírito Santo Jesus vai para o deserto;
- Lc 4,14: “Jesus voltou então para a Galiléia, com a força do Espírito”;
- Lc 4,18: Jesus utiliza texto do profeta Isaías (Is 61,1 – 2): “O Espírito do Senhor está sobre mim...”;
5.7.2 - A pregação inicial de Jesus
É em Lucas que se encontra uma maior explanação sobre a pregação inicial de Jesus – o Ministério de Jesus na Galiléia. Pode-se observar:
- Mt 4,17: apenas um versículo;
- Mc 1,14 – 15: apenas dois versículos;
- Lc 4,18 – 21: Jesus utiliza o texto de Isaías (Is 61,1 – 2) e apresenta seu “programa de ação”; o Reino de Deus, inaugurado por Jesus, tem características praticas e concretas. O discípulo de Cristo deve continuar com a obra do Mestre de Nazaré.
5.7.3 - A alegria
Este sentimento pervade todo Evangelho. Por exemplo:
- Lc 1,13 – 14: o nascimento de João Batista é motivo de alegria para o povo;
- Lc 1,28: alegria de Maria;
- Lc 2,10 – 11: o nascimento de Jesus;
- Lc 10,17: os discípulos voltam da missão alegres;
- Lc 15: o pastor, a mulher e o pai, se alegram pelo encontro da ovelha, da moeda e do filho, respectivamente;
- Lc 24,52: Lucas começa o evangelho com o tema da alegria (Lc 1,13 – 14) e o conclui com o mesmo tema.
5.7.4 - Universalismo da salvação[12]
A finalidade da pregação lucana é o anuncio aos gentios e Lucas utiliza de vários artifícios para dizer que a salvação não é somente para o povo judeu, ou somente para aqueles que são oriundos do judaísmo.
Já no início da pregação de João Batista, Lucas utiliza um texto do profeta Isaías: “E toda carne verá a salvação de Deus”. (Lc 3,6 || Is 40,3 – 5)[13].
Na passagem da cura dos dez leprosos (Lc 17,11 – 19) o evangelista deixa patente que o único que voltou para agradecer à Jesus era um samaritano.
Pode-se observar o destaque da universalidade da salvação nas seguintes citações:
- Lc 2, 32: Jesus é a “luz para iluminar as nações”; versículo este que está dentro do Cântico de Simeão (Lc 2, 29 – 32);
- Lc 3,23 – 38: ao contrário de Mateus, que coloca Jesus dentro da História de Israel com a genealogia partindo de Abraão (Mt 1,1 – 16), Lucas remete o início de sua genealogia desde Adão, ou seja, desde o início da humanidade, salientando a salvação a todo gênero humano;
- Lc 10,29 – 37: novamente um samaritano, que era considerado como estrangeiro para o judeu, significa este universalismo de salvação;
- Lc 10,1 – 24: a missão dos setenta e dois discípulos, que foram enviados em todos os locais onde Jesus devia ir, o retorno e a alegria dos mesmos;
- Lc 24,47 o envio dos apóstolos “a todas as nações, a começar por Jerusalém”.
6 - Evangelistas e símbolos
Os evangelistas são simbolizados pelos animais descritos em:
Ez 1,10: “Seus rostos assemelhavam-se a rostos de homem; todos os quatro tinham, à direita, uma face de leão, à esquerda uma face de touro, e os quatro tinham um rosto de águia.”
Ap 4,7: “O primeiro animal era semelhante a um leão; o segundo a um touro novo; o terceiro tinha um rosto como de um homem e o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo.”
Mateus – Homem: por causa do início do Evangelho com a genealogia (Mt 1,1-17);
Marcos – Leão: o leão é um animal do deserto – Jesus no deserto (Mc 1,12);
Lucas – Touro: inicia relato falando de Zacarias – que era sacerdote – e que oferecia animais – em especial bovino – como sacrifício (Lc 1,5.8);
João – Águia: começa a narrativa com uma visão do alto: Jesus nas alturas, no céu (Jo 1,1-2).
Santo Ambrosio (falecido por volta de 397 d.C.) foi quem fez esta relação das imagens dos animais com os quatro evangelistas.
7 - Referências bibliográficas
1 BETIATO, Mario Antônio. Bíblia no Antigo Testamento: uma história amargamente doce. Vozes: Petrópolis, 2004
2 BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Paulus: São Paulo, 2004.
3 BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Editora Ave Maria: São Paulo, 2004.
4 BÍBLIA. Português. Tradução Ecumênica da Bíblia – TEB. Edições Loyola: São Paulo, 1997.
5 BOLANCIN, Euclides Martins. Como ler O Evangelho de Marcos – Quem é Jesus?. Paulus: São Paulo, 1997.
6 CAMACHO, Fernando; MATEOS, Juan. O Evangelho de Mateus. Paulus: São Paulo, 1993.
7 Marcos: Texto e Comentários. Paulus: São Paulo, 1998.
8 CÂMARA, Dom Jaime de Barros. Apontamentos de História Eclesiástica. Vozes: Rio de Janeiro, 1957.
9 CHOURAQUI, André. A Bíblia – No princípio (Gênesis). Imago Editora Ltda: Rio de Janeiro, 1995.
10 A Bíblia – Marcos (O Evangelho segundo Marcos). Imago Editora Ltda: Rio de Janeiro, 1995.
11 A Bíblia – Matyah (O Evangelho segundo Mateus). Imago Editora Ltda: Rio de Janeiro, 1996.
12 A Bíblia – Lucas (O Evangelho segundo Lucas). Imago Editora Ltda: Rio de Janeiro, 1996.
13 Os homens da Bíblia. Círculo do Livro, Editora Schwarcz Ltda: São Paulo, 1978.
14 DATTLER, Frederico. Sinopse dos Quatro Evangelhos. Paulus: São Paulo, 2003.
15 DELORME. Leitura do Evangelho segundo Marcos. Paulus: São Paulo, 1997.
16 DUMAIS, Marcel. O Sermão da Montanha, Mateus 5 – 7. Paulus: São Paulo, 1998.
17 FONSATTI, José Carlos. Introdução à Bíblia. Editora Vozes: Petrópolis, 2002.
18 GEORGE, Augustin. Leitura do Evangelho segundo Lucas. Paulus: São Paulo, 1998.
19 HAMMAN, Adalbet-G. Para ler Os Padres da Igreja. Paulus: São Paulo, 1995.
20 HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação : a promessa : a realização. Paulus: São Paulo, 1985.
21 LENTZEN-DEIS, Fritzleo. Comentário ao Evangelho de Marcos – Modelo de nova evangelização. Ave Maria: São Paulo.
22 LIBÂNIO, João Batista. Jesus na perspectiva de Marcos, Mateus, Lucas e João. Paulinas: São Paulo, 1994.
23 MARCONCINI, Benito. Os Evangelhos Sinóticos – Formação, Redação e Teologia. Paulinas: São Paulo, 2004.
24 MATOS, Henrique Cristiano José. Introdução à História da Igreja. Editora O Lutador: Belo Horizonte, 1987.
25 MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. Paulus: São Paulo, 2003.
26 MEDEIROS, José Mário de. Panorama da História da Bíblia. Paulus: São Paulo, 1987.
27 MORACHO, Felix. Como ler Os Evangelhos – para entender o que Jesus fazia e dizia. Paulus: São Paulo, 1997.
28 MOREIRA, Gilvander. Lucas e Atos uma teologia da História – Teologia Lucana. Paulinas: São Paulo.
29 MYERS, Ched. O Evangelho de São Marcos. Paulus: São Paulo, 1992.
30 ODORÍSSIO, Mauro. Evangelho de Marcos – Texto e comentário, leitura facilitada. Ave Maria: São Paulo.
31 Evangelho segundo São Lucas. Ave Maria: São Paulo.
32 RIUS-CAMPS, Josep. O Evangelho de Lucas – O êxodo do homem livre. Paulus: São Paulo, 1997.
33 SALDARINI, Anthony J. A Comunidade judaico-cristã de Mateus. Paulinas: São Paulo, 1992.
34 SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. Paulus: São Paulo, 2002.
35 SICRE, José Luis. Um encontro fascinante com Jesus – Introdução aos evangelhos – volume I. Paulinas: São Paulo.
36 Um encontro fascinante com Jesus – O mundo de Jesus – volume II. Paulinas: São Paulo.
37 Um encontro fascinante com Jesus – O Quarto Evangelho – volume III. Paulinas: São Paulo.
38 STORNIOLO, Ivo. Como ler O Evangelho de Lucas – Os pobres constroem a nova história. Paulus: São Paulo, 1997.
39 Como ler O Evangelho de Mateus – O caminho da justiça. Paulus: São Paulo, 1997.
40 VV.AA. Evangelho e Reino de Deus. Paulus: São Paulo, 1997.
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[1] Em 30 de setembro de 1943 – dia da comemoração da memória de São Jerônimo –, por motivo do cinqüentenário da encíclica "Providentissimus Deus"; o Santo Padre Pio XII (Eugenio Pacelli – pontífice no período de 02 de março de 1939 até 09 de outubro de 1958) publicou a nominada encíclica sobre os estudos bíblicos. Por sua extensão, e pela admirável clareza com que expõe as normas que devem ser observadas no uso da Sagrada Escritura, o importante documento adquire o alcance de uma verdadeira Carta Magna em matéria de estudos e apostolado bíblicos.
[2] Concilio Ecumênico Vaticano II: de 1962 até 1965. Concílio de cunho pastoral convocado pelo Papa João XXIII (Angelo Giuseppe Roncalli, papa de 28 de novembro de 1958 até 03 de junho de 1963) e encerrado pelo Romano Pontífice Paulo VI (Giovanni Battista Montini, pontificado de 21 de junho de 1963 até 06 de agosto de 1978).
[3] Elucidativa a nota de rodapé que consta na Bíblia de Jerusalém que atesta que Marcos foi discípulo de Pedro.
[4] Cf. nota explicativa para o presente versículo dada pela Bíblia de Jerusalém.
[5] HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação : a promessa : a realização. Paulus: São Paulo, 1985. p.464.
[6] MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. Paulus: São Paulo, 2003. p. 555.
[7] Novo Testamento – a Segunda, Definitiva e Plena Aliança que tem por mediador Jesus Cristo.
[8] Utiliza-se aqui o critério de “Livro” e não “Carta”, pois no Novo Testamento – a Segunda Aliança – se tem várias cartas atribuídas a um mesmo autor (Cartas Paulinas, Joaninas, etc.).
[9] Cf. Bíblia de Jerusalém.
[10] HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação : a promessa : a realização. Paulus: São Paulo, 1985. p.476.
[11] Esta pormenorização, metodologia de pesquisa, denota característica da cultura grega que prima por uma sistematização epistemológica.
[12] HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação : a promessa : a realização. Paulus: São Paulo, 1985. p.481.
[13] Cf. nota rodapé para este versículo na Bíblia de Jerusalém: “Lucas prolonga mais do que Mateus e Marcos a citação de Isaías para estende-la até o inicio de uma salvação universal”. |